segunda-feira, 15 de setembro de 2014

De plástico e de papel e de pano e de...

Tento buscar pela memória, e sei que meus primeiros “ensaios” em relação às artes cênicas estão mais próximas do circo, da rua e, especialmente, do palhaço. Mas não encontro exatamente onde isso começou. Sei que há relação com o trabalho de animador de eventos, e de eventos alternativos, principalmente em espaços externos, mas não sei como. Talvez um pouco pela necessidade de desenvolver a pesquisa, mas sem companhia. “Embarquei” no teatro pela via da minha irmã (ou por ela mesma a via), mas não era a rua e nem o palhaço. Naquele momento me parece que não havia traumas, eu acreditava que seguia pelo melhor percurso, e que o objetivo era certo. As dúvidas vieram com o tempo, mas penso que vieram meio tortas. Dúvidas em geral nos fazem repensar a prática, e melhorar em algum sentido. Mas essas, as que me vieram, chegaram a me paralisar. Cri que havia pegado o caminho errado e, durante um tempo, fingi que não era comigo. Mas por onde vejo agora, não me parece também que era um erro. Não me parece que não se estava desenvolvendo um conhecimento, tanto que penso que ele não está perdido: estou podendo retomar sem grandes dificuldades. Pelo menos não tão maiores do que as já previstas (e enormes). Por isso mesmo, não creio que continue me enganando tanto assim, e que meu processo deve ser conduzido de fora. O que vem de fora são informações, tão necessárias. Mas as experienciações devem vir de dentro. Como sempre vieram e vem há séculos, porque essa questão do não interpretar do palhaço não surgiu na década de 1970. Estou construindo um conhecimento à base de troca, que é meu mas também é do outro, que é diferente mas também é igual. O palhaço que conheço é diverso, e assim como estou aprendendo que meu modelo (se é que tenho um) não é o parâmetro de vários, os dos outros também não são o meu, e não preciso aceitá-lo “goela abaixo”. Meu nariz pode ser de muitos vermelhos, e talvez de nenhum, e o material que compõe o meu palhaço pode ser plástico, papel, pano ou o que eu tiver à mão de madrugada.

Belo Horizonte, 15 de setembro de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por você ter se deixado aqui

Estou agradecida! No sentido mesmo de estar cheia de graça, pois neste fim de semana fui tocada. Auxiliei a Yepocá Cia de Teatro e a atriz Rosimari Jacomelli a realizar três apresentações do seu espetáculo "O mapa do meu mundo" no Teatro de Bolso do Palladium. O espetáculo é uma história bem amarrada de reminiscências, entre sonho e não sonho. É a historia de uma mulher. Uma história que pode evocar a vivência de uma mulher do sul do Brasil, mas também do norte e do centro, e de todo o mundo. Também a minha vivência, também a sua, e a de qualquer mulher que frequentemente está "cheia de merda". Fui tocada pela esperança, pelas dúvidas e, principalmente, pela eterna procura do nosso tesouro. Minhas lágrimas correram pela delicadeza com que Rosi foi capaz de se lembrar de tantas questões de uma vida inteira, correram pela sensação de nunca mais que chega tão logo não sabemos mais quem somos e a possibilidade da fada madrinha não se efetiva e, enfim, correram pelo abraço carinhoso e agradecido (cheia de graça) de Rosi na despedida. Algumas despedidas são tão mais difíceis! A cada luz acionada era você que me iluminava.

Belo Horizonte, 05 de maio de 2014.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Partindo pra outra

Um turbilhão. Um monte de coisas querendo ser ditas, mas não se submetem à poda. Centenas de informações sobre escrita, leitura, lógica, comportamento, convivência, doença, morte. E nem um texto em anos. Falta ânimo para separar por cores, formas, enquadramentos. Falta coragem! Um bar, uma casa abandonada, um nariz abandonado, um longo texto retomado. E um corpo prestes a nascer de outro, como a abandonar o exoesqueleto velho.

Belo Horizonte, 18 de abril de 2014

sábado, 14 de janeiro de 2012

A louca da minha infância

Faz anos, quando sabia escrever ainda menos do que sei agora, quis contar a história de personagens da minha infância, aqueles exóticos, estereotipicamente intitulados "o velho", "a louca". Gostando tanto de contos e de crônicas, tentei fazer algo entre esses gêneros, e sobre a louca inventei um termo, procurando impressionar. Mal sabia que seu fim seria pior que aquele que imaginei: ontem soube que a polícia a conduziu a um hospital psiquiátrico, como chamam hoje os manicômios, onde foi recolhida.
Esta senhora (Maria, a louca, a bruxa) costumava passar boa parte do seu dia caminhando de um lado para o outro, rente ao muro de sua casa, donde foi observada e perseguida pelas crianças até se cansarem da rotina. Ela morou com um irmão, único parente a cuidá-la, mas ele faleceu há algum tempo. Sozinha, foi alimentada pelo mercado (onde havia comida paga por um período) e depois por uma vizinha. No último mês, a ação de uma quadrilha de ladrões que andava invadindo casas em meu bairro e que se instalou na casa de dona Maria levou à sua internação. O fato divide opiniões: no hospital ela estará protegida, mas perderá sua identidade. O que seria menos humano?
Os loucos da nossa infância são descabelados porque não há quem os penteie. Os cabelos, e barba, dessa senhora crescerão tanto que, ao invés de Maria, a bruxa, não será reconhecida por qualquer nome que a defina. Num muro vazio para sempre, nenhuma louca para contar histórias de interior, e um pouco da minha infância está morto por esses dias.

Belo Horizonte, 14 de janeiro de 2012

segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Aquelas meninas

Duas crianças moças. Qual olhos de ressaca, os olhos delas são absolutamente inebriantes. Uma delas, nome de pedra, tem a expressão rígida e a atenção concentrada praticamente. Cuida de outras crianças. Não parece se esconder, mas olha a mil metros.
A outra, louca, mantém um sorriso de Monalisa, o olhar fixo, as unhas pintadas de azul, arrojada. Finge inocência. Certamente tem um segredo, que é de ir além, de já ter chegado muito mais longe do que posso imaginar, e de saber que sei disso, mas não consigo alcançar seu pensamento. Decidida, ela se regozija por sua vantagem e ri de minha impotência. Vai embora, pois sua maior propriedade é a de não se importar.

Lenise Moraes
Dom Joaquim, 14 de agosto de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

Uma ausência muito azul

De fato é muito possível que nos acostumemos com tudo, com presenças e com ausências. Umas vezes mais difíceis que outras, mas nos acostumamos. Nos acostumamos com a cadeira vazia, com a cama sobrando, com o silêncio inesperado, do mesmo jeito que nossos ouvidos antes se acostumaram a ouvir muitos chamados. Se foram necessários alguns anos, agora precisaremos de outros mais, mas nos acostumamos. Daqui não é possível lembrar-se da voz grossa com uma musicalidade singular, dos olhos azuis infinitos, dos poucos cabelos lisos e brancos, dos mil beijos e abraços apertadíssimos de sentimento puro, “manteiga derretida”. A essa distância, tão grande, não posso me lembrar de caretinhas, de risos fartos em brincadeiras, de histórias contadas com riqueza de detalhes, e de “bravezas”. Quando lá voltar será possível não vê-lo, ver a sanfona mas não ouvi-la, nunca mais. Será possível não fazer comidas preferidas, não sentar para conversar, não alcançar pentes, remédios, óculos ou cordéis. De cá, tanta solidão, não sinto dor por não ter quem abraçar e choro simplesmente por reação alérgica ou por emoção ao assistir um filme (“manteiga derretida” sou eu, percebo). Me acostumo. Lá também me acostumarei. Depois de tantas, faz muito tempo que acreditava estar imune a ausências definitivas.

Lenise Moraes
Guanhães, 12 de agosto de 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Em alguns dias parece mais espessa a camada de vidro do espelho por detrás onde me encontro. E depois de tanto me esforçar para aumentar a intensidade da voz pensando ser essa a solução, me calo.
Sempre gostei do silêncio, e sempre admirei as pessoas que sabem usá-lo na hora certa. Acredito no verdadeiro bobo, o bom, que sabe se calar por fora para pensar, e que sabe que pensar é fazer alguma coisa, mesmo que fique assim por até duas horas.
Não tenho gostado, no entanto, do que vejo ultimamente: o silêncio por falta de opção. Dessa forma, calar-se perde toda a beleza, e vira solidão. Quando o que digo parou de fazer sentido para as pessoas e não notei? Tenho a impressão de que elas mudaram, sim, de estado, pois o entendimento já me pareceu possível. Ou aqueles com quem convivo evoluíram tanto e não consegui alcançar ou fui eu a crescer. E essa dúvida é absolutamente sincera. Meus gracejos o são só para mim, minha atitude aos outros parece mais rude que pretendi. As histórias só a mim interessam: por falta de enfeite ou por dizerem respeito ao que existe somente em minha casa?
Tenho aprendido a silenciar, da pior maneira, contudo. De um silêncio que sufoca, e que não pode me tranqüilizar, uma vez que sua razão de ser não é a falta de necessidade de falar.

Lenise Moraes
Guanhães, 11 de agosto de 2011