sábado, 14 de janeiro de 2012

A louca da minha infância

Faz anos, quando sabia escrever ainda menos do que sei agora, quis contar a história de personagens da minha infância, aqueles exóticos, estereotipicamente intitulados "o velho", "a louca". Gostando tanto de contos e de crônicas, tentei fazer algo entre esses gêneros, e sobre a louca inventei um termo, procurando impressionar. Mal sabia que seu fim seria pior que aquele que imaginei: ontem soube que a polícia a conduziu a um hospital psiquiátrico, como chamam hoje os manicômios, onde foi recolhida.
Esta senhora (Maria, a louca, a bruxa) costumava passar boa parte do seu dia caminhando de um lado para o outro, rente ao muro de sua casa, donde foi observada e perseguida pelas crianças até se cansarem da rotina. Ela morou com um irmão, único parente a cuidá-la, mas ele faleceu há algum tempo. Sozinha, foi alimentada pelo mercado (onde havia comida paga por um período) e depois por uma vizinha. No último mês, a ação de uma quadrilha de ladrões que andava invadindo casas em meu bairro e que se instalou na casa de dona Maria levou à sua internação. O fato divide opiniões: no hospital ela estará protegida, mas perderá sua identidade. O que seria menos humano?
Os loucos da nossa infância são descabelados porque não há quem os penteie. Os cabelos, e barba, dessa senhora crescerão tanto que, ao invés de Maria, a bruxa, não será reconhecida por qualquer nome que a defina. Num muro vazio para sempre, nenhuma louca para contar histórias de interior, e um pouco da minha infância está morto por esses dias.

Belo Horizonte, 14 de janeiro de 2012