sexta-feira, 6 de fevereiro de 2026

Quando o silêncio dói demais

Por que eu parei de conversar? Às 9:26 do dia 06 de fevereiro de 2026, enquanto refletia sobre as conversas interessantes de um conhecido, acabo de perceber. Aqueles que tem certo grupo de informações tem aparato para "trocar ideias" e, normalmente, também tem boa percepção e crítica para síntese e análise do que recebe no diálogo. Mas também, por vezes não sabem bem como se portar e não parecer soberbos. Eu era boa nisso. Sabia falar sobre assuntos complexos de forma simples e até sentia certo orgulho. Parecia-me que eu era uma boa filósofa, sob a ótica da máxima de Ortega y Gasset que diz que a clareza é a cortesia do filósofo. Mas fui parando. Percebi que não parecia mais tão clara, perdi o fio da meada. Não me vi freando. Parei. E por quê? Porque sou mulher. Quando um homem demonstra algum conhecimento ele pode abrir caminhos para diversas interações. E isso é reconhecido como uma virtude. Suas opiniões são consistentes, enfim. No entanto, trata-se de um direito que não é dado às mulheres. E antes eu falava como se não soubesse. Ninguém está acostumado a ouvir nossa voz com naturalidade. Qualquer demonstração de conhecimento de uma mulher é como uma tentativa de ser superior, se não pudéssemos ser iguais (afinal nosso poder é uma ameaça para suplantar o dos homens, é o que sustenta o patriarcado, uma disputa de poder). É como se eu ainda não tivesse direito, se tivesse sido errado em algum momento, a me interessar, a querer saber, e a querer falar sobre o que sei, esclarecendo as dúvidas que tenho com outros, ou outras. "Trocar ideias". Como se não fosse legítimo me portar como qualquer pessoa nesse mundo que pensa, que tem desejos, e que tem amor por querer saber, por se interessar. Parei de me interessar, por fim? Parece haver algo, não adormecido, mas amarrado e amordaçado, porque frequentemente o sinto tentando se manifestar. E o afundo de novo. Não é, contudo, um movimento consciente, organizado. Tornou-se um automatismo de defesa. Defesa? E até esse movimento é tão silencioso que ninguém ouve. Se nem eu mesma percebi quando e como cheguei aqui, ninguém viu. E se não há testemunhas do que se passou aqui dentro, não há valor. Não é sofrimento se não está documentado. E minha fala, de mulher, não produz documento nesse mundo. É discurso vazio, ou no vazio. Se a violência me destruiu lá dentro não é importante pro mundo cá fora. Deveria voltar a falar, mas em que contexto? Nos meios onde concordam comigo? Em momentos, como aqui, parece que reverbero o mesmo que ecoa de muitas, mas ainda sinto o nó na garganta. Permanecer nesses lugares confortáveis me satisfaz? Se a questão é a busca pelo saber, aqui posso me expressar e crescer, ou é só um jeito diferente de afundar quem está preso e calado? Se noto agora o que se passa, talvez queira estender uma incontestável corda que traga esse ímpeto à superfície do vasto saber que não sei. Ou talvez só obedeça à regra de terminar um texto com esperança.

segunda-feira, 26 de agosto de 2024

O sorriso

Pergunta-me porque estou sempre sorrindo Inércia Primeira lei de Newton Não sei mais precisar se esse sorriso começou por vontade ou por necessidade O fato é que ele se mantém Tudo no mundo é questão de sobrevivência Belo Horizonte, 26 de agosto de 2024

sábado, 19 de novembro de 2016

Declaro!

Nunca me declarei branca, parda ou negra, porque nunca havia pensado nisso. Quando era necessário preencher fichas, marcava a opção branca, não por pensar que era essa minha raça (não havia refletido profundamente sobre minhas origens) mas pela cor da minha pele, que sempre havia sido muito clara. Tive o primeiro e breve lampejo quando desejei ser a Bárbara do Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, no teatro. Gostava tanto da história e da personagem que, buscando convencer que eu poderia representá-la, me descobri filha de um pai que vinha de uma mistura entre negros e índios. Eu era tão cafusa quanto a Bárbara. Depois, entendi que minha relação com a minha boca e o meu cabelo era muito mais longa, profunda e adorável do que eu supunha. Com o tempo e os estudos, fui percebendo que minha negritude é muito mais do que isso, e se manifesta, sim, no meu corpo... na altura, nos ombros e quadris largos, na panturrilha rechonchuda, no jeito de me mover e dançar, na postura, na voz "grossa". Também nas preferências, na relação com as cores, no olhar. E também no pensamento, nas ideias que tenho sobre o mundo e sobre as relações sociais, a economia, a política. Faz pouco que me reconheço lutando (ainda tão timidamente) pelas causas que considero justas e por respeito, enquanto mulher, pobre e negra. São tantas outras causas, há tanto ainda por pensar, por estudar. Mas agora, há tão pouco tempo, tenho uma esperançazinha diária, mesmo depois de cada choque. Esperança que sempre esteve aqui, mas que ainda não tinha consciência de si. Belo Horizonte, 19 de novembro de 2016

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

De plástico e de papel e de pano e de...

Tento buscar pela memória, e sei que meus primeiros “ensaios” em relação às artes cênicas estão mais próximas do circo, da rua e, especialmente, do palhaço. Mas não encontro exatamente onde isso começou. Sei que há relação com o trabalho de animador de eventos, e de eventos alternativos, principalmente em espaços externos, mas não sei como. Talvez um pouco pela necessidade de desenvolver a pesquisa, mas sem companhia. “Embarquei” no teatro pela via da minha irmã (ou por ela mesma a via), mas não era a rua e nem o palhaço. Naquele momento me parece que não havia traumas, eu acreditava que seguia pelo melhor percurso, e que o objetivo era certo. As dúvidas vieram com o tempo, mas penso que vieram meio tortas. Dúvidas em geral nos fazem repensar a prática, e melhorar em algum sentido. Mas essas, as que me vieram, chegaram a me paralisar. Cri que havia pegado o caminho errado e, durante um tempo, fingi que não era comigo. Mas por onde vejo agora, não me parece também que era um erro. Não me parece que não se estava desenvolvendo um conhecimento, tanto que penso que ele não está perdido: estou podendo retomar sem grandes dificuldades. Pelo menos não tão maiores do que as já previstas (e enormes). Por isso mesmo, não creio que continue me enganando tanto assim, e que meu processo deve ser conduzido de fora. O que vem de fora são informações, tão necessárias. Mas as experienciações devem vir de dentro. Como sempre vieram e vem há séculos, porque essa questão do não interpretar do palhaço não surgiu na década de 1970. Estou construindo um conhecimento à base de troca, que é meu mas também é do outro, que é diferente mas também é igual. O palhaço que conheço é diverso, e assim como estou aprendendo que meu modelo (se é que tenho um) não é o parâmetro de vários, os dos outros também não são o meu, e não preciso aceitá-lo “goela abaixo”. Meu nariz pode ser de muitos vermelhos, e talvez de nenhum, e o material que compõe o meu palhaço pode ser plástico, papel, pano ou o que eu tiver à mão de madrugada.

Belo Horizonte, 15 de setembro de 2014

segunda-feira, 5 de maio de 2014

Por você ter se deixado aqui

Estou agradecida! No sentido mesmo de estar cheia de graça, pois neste fim de semana fui tocada. Auxiliei a Yepocá Cia de Teatro e a atriz Rosimari Jacomelli a realizar três apresentações do seu espetáculo "O mapa do meu mundo" no Teatro de Bolso do Palladium. O espetáculo é uma história bem amarrada de reminiscências, entre sonho e não sonho. É a historia de uma mulher. Uma história que pode evocar a vivência de uma mulher do sul do Brasil, mas também do norte e do centro, e de todo o mundo. Também a minha vivência, também a sua, e a de qualquer mulher que frequentemente está "cheia de merda". Fui tocada pela esperança, pelas dúvidas e, principalmente, pela eterna procura do nosso tesouro. Minhas lágrimas correram pela delicadeza com que Rosi foi capaz de se lembrar de tantas questões de uma vida inteira, correram pela sensação de nunca mais que chega tão logo não sabemos mais quem somos e a possibilidade da fada madrinha não se efetiva e, enfim, correram pelo abraço carinhoso e agradecido (cheia de graça) de Rosi na despedida. Algumas despedidas são tão mais difíceis! A cada luz acionada era você que me iluminava.

Belo Horizonte, 05 de maio de 2014.

sexta-feira, 18 de abril de 2014

Partindo pra outra

Um turbilhão. Um monte de coisas querendo ser ditas, mas não se submetem à poda. Centenas de informações sobre escrita, leitura, lógica, comportamento, convivência, doença, morte. E nem um texto em anos. Falta ânimo para separar por cores, formas, enquadramentos. Falta coragem! Um bar, uma casa abandonada, um nariz abandonado, um longo texto retomado. E um corpo prestes a nascer de outro, como a abandonar o exoesqueleto velho.

Belo Horizonte, 18 de abril de 2014

sábado, 14 de janeiro de 2012

A louca da minha infância

Faz anos, quando sabia escrever ainda menos do que sei agora, quis contar a história de personagens da minha infância, aqueles exóticos, estereotipicamente intitulados "o velho", "a louca". Gostando tanto de contos e de crônicas, tentei fazer algo entre esses gêneros, e sobre a louca inventei um termo, procurando impressionar. Mal sabia que seu fim seria pior que aquele que imaginei: ontem soube que a polícia a conduziu a um hospital psiquiátrico, como chamam hoje os manicômios, onde foi recolhida.
Esta senhora (Maria, a louca, a bruxa) costumava passar boa parte do seu dia caminhando de um lado para o outro, rente ao muro de sua casa, donde foi observada e perseguida pelas crianças até se cansarem da rotina. Ela morou com um irmão, único parente a cuidá-la, mas ele faleceu há algum tempo. Sozinha, foi alimentada pelo mercado (onde havia comida paga por um período) e depois por uma vizinha. No último mês, a ação de uma quadrilha de ladrões que andava invadindo casas em meu bairro e que se instalou na casa de dona Maria levou à sua internação. O fato divide opiniões: no hospital ela estará protegida, mas perderá sua identidade. O que seria menos humano?
Os loucos da nossa infância são descabelados porque não há quem os penteie. Os cabelos, e barba, dessa senhora crescerão tanto que, ao invés de Maria, a bruxa, não será reconhecida por qualquer nome que a defina. Num muro vazio para sempre, nenhuma louca para contar histórias de interior, e um pouco da minha infância está morto por esses dias.

Belo Horizonte, 14 de janeiro de 2012