De fato é muito possível que nos acostumemos com tudo, com presenças e com ausências. Umas vezes mais difíceis que outras, mas nos acostumamos. Nos acostumamos com a cadeira vazia, com a cama sobrando, com o silêncio inesperado, do mesmo jeito que nossos ouvidos antes se acostumaram a ouvir muitos chamados. Se foram necessários alguns anos, agora precisaremos de outros mais, mas nos acostumamos. Daqui não é possível lembrar-se da voz grossa com uma musicalidade singular, dos olhos azuis infinitos, dos poucos cabelos lisos e brancos, dos mil beijos e abraços apertadíssimos de sentimento puro, “manteiga derretida”. A essa distância, tão grande, não posso me lembrar de caretinhas, de risos fartos em brincadeiras, de histórias contadas com riqueza de detalhes, e de “bravezas”. Quando lá voltar será possível não vê-lo, ver a sanfona mas não ouvi-la, nunca mais. Será possível não fazer comidas preferidas, não sentar para conversar, não alcançar pentes, remédios, óculos ou cordéis. De cá, tanta solidão, não sinto dor por não ter quem abraçar e choro simplesmente por reação alérgica ou por emoção ao assistir um filme (“manteiga derretida” sou eu, percebo). Me acostumo. Lá também me acostumarei. Depois de tantas, faz muito tempo que acreditava estar imune a ausências definitivas.
Lenise Moraes
Guanhães, 12 de agosto de 2011
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