sábado, 19 de novembro de 2016

Declaro!

Nunca me declarei branca, parda ou negra, porque nunca havia pensado nisso. Quando era necessário preencher fichas, marcava a opção branca, não por pensar que era essa minha raça (não havia refletido profundamente sobre minhas origens) mas pela cor da minha pele, que sempre havia sido muito clara. Tive o primeiro e breve lampejo quando desejei ser a Bárbara do Calabar, de Chico Buarque e Ruy Guerra, no teatro. Gostava tanto da história e da personagem que, buscando convencer que eu poderia representá-la, me descobri filha de um pai que vinha de uma mistura entre negros e índios. Eu era tão cafusa quanto a Bárbara. Depois, entendi que minha relação com a minha boca e o meu cabelo era muito mais longa, profunda e adorável do que eu supunha. Com o tempo e os estudos, fui percebendo que minha negritude é muito mais do que isso, e se manifesta, sim, no meu corpo... na altura, nos ombros e quadris largos, na panturrilha rechonchuda, no jeito de me mover e dançar, na postura, na voz "grossa". Também nas preferências, na relação com as cores, no olhar. E também no pensamento, nas ideias que tenho sobre o mundo e sobre as relações sociais, a economia, a política. Faz pouco que me reconheço lutando (ainda tão timidamente) pelas causas que considero justas e por respeito, enquanto mulher, pobre e negra. São tantas outras causas, há tanto ainda por pensar, por estudar. Mas agora, há tão pouco tempo, tenho uma esperançazinha diária, mesmo depois de cada choque. Esperança que sempre esteve aqui, mas que ainda não tinha consciência de si. Belo Horizonte, 19 de novembro de 2016