segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Aquelas meninas

Duas crianças moças. Qual olhos de ressaca, os olhos delas são absolutamente inebriantes. Uma delas, nome de pedra, tem a expressão rígida e a atenção concentrada praticamente. Cuida de outras crianças. Não parece se esconder, mas olha a mil metros.
A outra, louca, mantém um sorriso de Monalisa, o olhar fixo, as unhas pintadas de azul, arrojada. Finge inocência. Certamente tem um segredo, que é de ir além, de já ter chegado muito mais longe do que posso imaginar, e de saber que sei disso, mas não consigo alcançar seu pensamento. Decidida, ela se regozija por sua vantagem e ri de minha impotência. Vai embora, pois sua maior propriedade é a de não se importar.

Lenise Moraes
Dom Joaquim, 14 de agosto de 2011

sábado, 20 de agosto de 2011

Uma ausência muito azul

De fato é muito possível que nos acostumemos com tudo, com presenças e com ausências. Umas vezes mais difíceis que outras, mas nos acostumamos. Nos acostumamos com a cadeira vazia, com a cama sobrando, com o silêncio inesperado, do mesmo jeito que nossos ouvidos antes se acostumaram a ouvir muitos chamados. Se foram necessários alguns anos, agora precisaremos de outros mais, mas nos acostumamos. Daqui não é possível lembrar-se da voz grossa com uma musicalidade singular, dos olhos azuis infinitos, dos poucos cabelos lisos e brancos, dos mil beijos e abraços apertadíssimos de sentimento puro, “manteiga derretida”. A essa distância, tão grande, não posso me lembrar de caretinhas, de risos fartos em brincadeiras, de histórias contadas com riqueza de detalhes, e de “bravezas”. Quando lá voltar será possível não vê-lo, ver a sanfona mas não ouvi-la, nunca mais. Será possível não fazer comidas preferidas, não sentar para conversar, não alcançar pentes, remédios, óculos ou cordéis. De cá, tanta solidão, não sinto dor por não ter quem abraçar e choro simplesmente por reação alérgica ou por emoção ao assistir um filme (“manteiga derretida” sou eu, percebo). Me acostumo. Lá também me acostumarei. Depois de tantas, faz muito tempo que acreditava estar imune a ausências definitivas.

Lenise Moraes
Guanhães, 12 de agosto de 2011

terça-feira, 16 de agosto de 2011

Em alguns dias parece mais espessa a camada de vidro do espelho por detrás onde me encontro. E depois de tanto me esforçar para aumentar a intensidade da voz pensando ser essa a solução, me calo.
Sempre gostei do silêncio, e sempre admirei as pessoas que sabem usá-lo na hora certa. Acredito no verdadeiro bobo, o bom, que sabe se calar por fora para pensar, e que sabe que pensar é fazer alguma coisa, mesmo que fique assim por até duas horas.
Não tenho gostado, no entanto, do que vejo ultimamente: o silêncio por falta de opção. Dessa forma, calar-se perde toda a beleza, e vira solidão. Quando o que digo parou de fazer sentido para as pessoas e não notei? Tenho a impressão de que elas mudaram, sim, de estado, pois o entendimento já me pareceu possível. Ou aqueles com quem convivo evoluíram tanto e não consegui alcançar ou fui eu a crescer. E essa dúvida é absolutamente sincera. Meus gracejos o são só para mim, minha atitude aos outros parece mais rude que pretendi. As histórias só a mim interessam: por falta de enfeite ou por dizerem respeito ao que existe somente em minha casa?
Tenho aprendido a silenciar, da pior maneira, contudo. De um silêncio que sufoca, e que não pode me tranqüilizar, uma vez que sua razão de ser não é a falta de necessidade de falar.

Lenise Moraes
Guanhães, 11 de agosto de 2011

quinta-feira, 11 de agosto de 2011

Para somente gostar

Há duas maneiras de argumentar. A primeira aprendemos pelos estudos indiretos, isto é, mediados por outra pessoa, ou outras. Nesse modo, construído desde a mais tenra idade, devemos construir textos explicativos, baseados em prévios conhecimentos de lógica e retórica. Nele, nossas palavras são cheias de adorno que, embora executado muito naturalmente, torna nossos discursos repletos de conteúdo, de jeito a convencer nossos interlocutores de nossas razões. Essa maneira, ao que parece, é que legitima nossa capacidade e direito de emitir opiniões acerca dos assuntos.
No outro modo, desenvolvido por nossa própria conta, quer dizer, a partir do que observamos e estudamos do mundo sem mediação, não nos furtamos à emissão de juízos, mas sem aquela velha razão. Não significa que não haja qualquer razão e lógica nessa maneira de argumentar, que tampouco parece argumento. Há fundamento sim, contudo um fundamento tão interno que é difícil fazer com que os outros participem dele. Sobretudo na sociedade de nossa inserção, tão acostumada a longas explicações. Os grandes discursos, provavelmente, não fazem uso de um número tão amplo de sensações e talvez por isso precisem de mais palavras. Ambas são boas, creio, e necessárias. E se é assim, porque supervalorizar a primeira em detrimento da segunda? Se posso contemplar algo que me agrada talvez não deva falar desse agrado ou pelo menos não precise falar muito para garantir aos outros que conheço aquilo que me agrada e sobre o que discorro, e ainda que sei porque aquilo me agrada.
Se interrogada sobre minha opinião, quero poder não precisar dizer muitas coisas para que entendam qual é a minha posição perante uma peça, um espetáculo, um ato político. Quero simplesmente, meus caros, ter direito ao gostei.

Lenise Moraes
Água Boa, 08 de agosto de 2011