Estamos em Belo Horizonte. Somos um grupo que faz intervenções em espaços urbanos utilizando-se da dança. Frequentemente seguimos algumas propostas, e isso não só encaminha nossas pesquisas como nos confere certa unidade. Que não significa corpos iguais, movimentos iguais, pensamentos iguais, mas intensidades parecidas de vontade, para descobrir juntos.
No sábado, dia 14 de agosto de 2010, seguiríamos a proposta “De xícara a copo lagoinha”, iniciada nesse ano, e que trabalha a questão da fragilidade humana, tanto física quanto psíquica, e uns em relação a outros. Para este dia, vestiríamos camisas vermelhas, jeans e xícaras brancas.
Ocorreu, porém, um fenômeno: dez por cento corresponde a um décimo do total (e isso é uma grande quantidade), e dez por cento das pessoas que foram ao centro da cidade no sábado pela manhã estavam vestidas de jeans e vermelho. Se considerarmos as blusas estampadas, listradas ou duas cores, essa porcentagem aumenta consideravelmente. E para nossa sorte, ou não, havia panfletagem no local que escolhemos (os bancos de pedra da rua Rio de Janeiro), e a propaganda era jeans e rubro.
Minhas questões com tais tecido e cor vem de outros tempos, e cri que todos esses elementos seriam positivos ao encontro e à obra. Entretanto, desconfortável foi outro fato: num local que foi tornando-se cada vez mais apropriado, em que o trânsito de pessoas a pé ou motorizadas foi crescendo com o dia, e a espera, mais do que isso, era esperança, veio a frustração. E o desespero, sinônimo de ilusão, diluiu a alegria brilhante que pintava aquela manhã. A possível harmonia (quando muitos resolveram sair de casa bem parecidos), a intensidade do vermelho queimou os olhos, o jeans amarrou as pernas não se sabe por quanto tempo. E a xícara branca sequer deixou o embrulho de papel.
Belo Horizonte, 14 de agosto de 2010, 12h09.
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