sexta-feira, 8 de abril de 2011

Em Obras na Disseminação V

Começou terça-feira a maratona disseminante do EM OBRAS. Na verdade ela já havia começado antes, dias antes, meses, talvez anos, com uma motivação em comum entre bailarinos e cineastas performers: disseminar o questionamento, a ironia, o incômodo. Intervir no cotidiano tão cotidiano que a nós, nos dói.
Saímos na terça para lá, trajando nossos vermelhos (sempre!), portando nossas xícaras (brancas?) e nosso ânimo alterado. Lançávamos uma semente – um mistério – do que faríamos pela semana. Arriscamos movimentos (dança?) por trás de uma sombra branca de tecido, sobre a qual produzíamos sombras negras, ou cinzas, como uma parte do mistério que já começava a se desnudar. Sombras de corpos/copos frágeis e fortes ao mesmo tempo.
Tínhamos uma energia estranha, crescendo a cada passo, cada salto, e preenchendo o tempo e o espaço do atraso. Sim, atraso técnico do evento, que não configurou-se num atraso artístico: iniciamos às 19 horas, e crescemos o quanto pudemos durante os cinco minutos de trabalho, das 19 às 20 horas. Abrimos, mais que cortinas, o mistério da Disseminação V, que iniciava-se naquele instante.
Nos tornamos a ver, sentir, amar, dançar na sexta, pelas Estações, pelos trilhos e trilhas. Tratava-se de um desabrochar na nova primavera do EM OBRAS: um reencontro. Vieram aqueles que já não vinham, e outros, novos. Mas um encontro como tal traz consigo transtornos. Dançamos com um a força que a nós mesmos surpreendeu, tanto porém, que extrapolou em alguns momentos o que acreditávamos ser a proposta Cardume, com outro tipo de fluidez. Ambas fluidas, no entanto. Durou quase três horas o êxtase do rever, redançar. E não notamos imediatamente que propúnhamos muito, que informávamos muito e não nos deixávamos ser informados. Todos ansiosos por falar, vitimados por um longo silêncio anterior que balançou nossos juízos e ouvidos/corpos. Falamos tanto que obrigamos a nos ouvir mesmo os que, além do não querer, não estavam ali para isso, mas para falar de outros modos, inclusive sem falar. Pretendíamos movimentar, e movimentamos, mas fomos confundidos com alguma algazarra. Não, não era algazarra, era intervenção. Outra vez tivemos que pensar.
Nosso susto talvez tenha sido o motivo de um encontro diferente no sábado, quando o grupo, seguindo sua condição de movimento, moveu-se para outro estado, mas com força igualmente intensa. Pela manhã, seis mulheres vermelhas viram quebrar-se o copo nos primeiros minutos, e aquilo que deixou de unir as partes do vidro uniu ainda mais as partes de carne e ânimo. Não precisávamos da palavra dita, e ela se disse, embora quase num sussurro. Soubemos terminar antes e sem aquele “vamos terminar”.
À tarde tínhamos cores diferentes das do dia anterior, e intervir, era muito claro, não significava qualquer algazarra. Mais do que nunca, o EM OBRAS era um corpo só, com o mesmo ânimo, pudemos perceber. Encerrar a semana nesse estado era prenúncio de novos tempos e danças. Talvez finalmente tenhamos entendido as duas propostas com as quais trabalhamos atualmente, e entendido que precisamos entender onde pisamos (o que é Disseminação?), e agora podemos dançar sem susto. Ou com ele, mas de outro assustar-se. Outro ponto de vista. É preciso silenciar ainda para ouvir. Parece que com os pequenos abismos entre ações nos esquecemos, meus caros, do princípio: ouvir. E é preciso esperar. Difícil esperar para ouvir, mas vital, essencial.
Contudo, bailamos com todos os disseminadores e disseminávamos também com os transeuntes no metrô como só esse corpo chamado EM OBRAS é capaz de bailar.
Como diz Joyce: EM OBRAS e AVANTE!

Belo Horizonte, 06 de dezembro de 2010

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