Carlos.
Sempre gostei desse nome. A inspiração deve ter vindo mesmo de um parente que tornou-se distante, uma vez que até a lembrança é vaga. Inventei uma série de personagens pela vida a fora chamados assim, e aqueles que não inventei, tomei como meus: era meu direito. Poderia ter atribuído Carlos a outros, que tivessem outros nomes, mas estou certa de que deixariam de merecer tal denominação. Fui construindo um caminho de Carlos, crendo que poderia fazer as coisas a meu modo sem ter que explicar porque pensava diferente, mas as contas chegaram um dia. E não havia com o que eu pudesse pagar, só me restava um bem, e tive que dispor dele. Embora tenha casado-me sem dizer a ninguém quando (sei perfeitamente como aconteceu, imagem fixada para sempre), sem testemunhas além de mim e meu companheiro, pari várias idéias, que foram morrendo com o tempo, palhaços tiveram as máscaras derretidas, o francês diluiu, cabelos e barbas foram cortados, o estômago secou e nem um filho me restou. Nenhum Carlos existiu de verdade.